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O Reconhecer da Alma

O ponteiro do relógio na parede do quarto 314 já passava das duas da tarde quando a atmosfera estática e asséptica do ambiente começou a mudar. Fábio, que havia puxado a poltrona de acompanhante para bem perto da cabeceira do leito, mantinha os olhos fixos em Luciano, recusando-se a cumprir o horário comercial na empresa. Ele havia prometido a si mesmo e ao rapaz que não o deixaria sozinho naquele hospital, ignorando os relatórios na pasta de couro e os telexes acumulados na mesa de jacarandá. Cumpria a promessa em silêncio, velando o sono do desconhecido.

De repente, o ritmo do monitor cardíaco deu um salto sutil, acelerando os bipes no visor. Fábio inclinou-se para a frente, o corpo tenso de expectativa. Luciano soltou um suspiro profundo, o peito largo subindo e descendo com força sob o lençol branco. Suas pálpebras, que antes repousavam pesadas, começaram a tremer e a se mover de um lado para o outro. Devagar, com um esforço que parecia sobre-humano, o jovem loiro começou a abrir os olhos.

A luz suave da tarde de agosto bateu contra as pupilas de Luciano, fazendo-o piscar repetidas vezes. O azul profundo de seus olhos — o mesmo azul que Fábio admirara na fotografia e que agora se revelava vivo — parecia turvo, tentando focar o teto branco e as paredes do quarto. Ele tentou mover a cabeça, mas uma careta de dor cortou suas feições esculpidas. Luciano estava profundamente confuso, sem saber onde estava ou o que havia acontecido. No entanto, ao girar o rosto lentamente para o lado direito, o seu olhar cruzou com o de Fábio.

Uma onda visível de alívio e serenidade percorreu o rosto pálido do jovem. A confusão em suas pupilas deu lugar a um brilho de reconhecimento e felicidade. Apesar de o corpo de Fábio ser um absoluto desconhecido, aquela alma, a energia daquele olhar verde e a presença firme ali na volta eram a coisa mais familiar que ele possuía naquele momento.

— Você... — a voz de Luciano saiu extremamente fraca, um sussurro rouco, arranhado e debilitado pela secura de dias de intubação.

Fábio sentiu o coração saltar na garganta. Um sorriso largo e emocionado transbordou em seus lábios enquanto ele se aproximava ainda mais, esticando a mão para segurar, com delicadeza e firmeza, os dedos de Luciano que descansavam sobre o colchão.

— Oi, guri... — Fábio respondeu, a voz embargada e suave, tentando conter as lágrimas de alívio que insistiam em brotar. — Calma. Não tenta te mexer muito. Tu tá seguro. Tá num hospital.

Luciano apertou os dedos de Fábio de volta, uma pressão fraca, mas carregada de uma necessidade desesperada de aterramento. Ele piscou devagar, olhando fixamente para o rapaz à sua frente.

— Eu conheço... a tua voz — murmurou Luciano, os olhos azuis buscando os verdes de Fábio com uma intensidade magnética.

— Sim, eu tava aqui quando tu acordou mais cedo, lembra? O médico te examinou — disse Fábio, sorrindo de canto.

— Não... antes disso. Na escuridão — insistiu Luciano, franzindo a testa sob a gaze cirúrgica, tentando pescar as palavras no vazio da amnésia. — Eu ouvia alguém me chamando. Uma voz firme, mas que parecia... sei lá, que parecia com medo por mim. Alguém me pedindo o tempo todo para voltar, para não desistir. Era você, não era?

Fábio sentiu um arrepio elétrico percorrer sua espinha, o calor da bissexualidade aceita queimando sob a camisa. Ele engoliu o nó na garganta e assentiu, acariciando o dorso da mão de Luciano com o polegar.

— Era eu, sim. Eu passei todos esses dias aqui na volta... e prometi que não ia te deixar sozinho no escuro.

Luciano sustentou o olhar, e um brilho sutil cruzou suas pupilas azuis, uma percepção que ia além da perda de memória.

— Por que você ficou? — perguntou o loiro, a voz num fio, mas carregada de uma curiosidade íntima. — Ninguém dedica tanto tempo assim para um estranho.

Temendo ter falado o que não devia e se entregado cedo demais no meio daquela fragilidade, Fábio buscou a proteção de sua máscara familiar, embora seus dedos continuassem entrelaçados aos dele.

— Eu tinha que ficar, guri. A minha irmã, a Letícia... ela também ficou aqui do teu lado esses dias todos. Ela só tá salva hoje por causa de ti, Luciano. Tu enfrentou aqueles caras sozinho na calçada. Tu foi um herói para a nossa família. Eu tenho uma dívida eterna contigo.

Luciano tentou sorrir, um movimento quase imperceptível nos lábios bem desenhados, embora o cansaço ainda pesasse em suas feições.

— Letícia... — Luciano repetiu o nome, testando o som. — Minha cabeça parece que tá cheia de névoa, Fábio. Eu não lembro de garota nenhuma, não lembro de briga... eu não sei como vim parar nesse hospital. Tudo sumiu. Ficou só um vazio. Mas quando eu abri os olhos e te vi... eu te reconheci pela voz. Ela me acompanhou por muito tempo. Como se estivesse me guiando de volta. Quando você fala, eu sinto que tá tudo bem, que eu não tô sozinho nesse vazio. É como se eu tivesse encontrado o caminho de casa na sua voz.

Aquelas palavras, ditas com a pureza e a vulnerabilidade de quem acaba de emergir do limiar entre a vida e a morte, atingiram Fábio em cheio. A conexão entre os dois, que antes parecia um enigma platônico construído na solidão de seus pensamentos e nas noites de vigília, materializou-se ali, crua, viva e incontestável. Havia um entendimento silencioso ali, um encaixe de almas que dispensava o passado que Luciano perdera. Eles eram dois estranhos que o destino havia amarrado pelo nó mais forte do afeto.

— Tu encontrou, guri. Tu tá em casa agora — Fábio disse, aproximando-se um pouco mais e usando a outra mão para afastar com extrema doçura uma mecha loira que caía sobre a testa ferida de Luciano. — Não precisa te preocupar com nada agora. O teu passado, quem tu é, de onde tu veio... a gente vai descobrir tudo isso juntos, no teu tempo. Eu tô aqui contigo. E eu não vou arredar o pé desse quarto.

Luciano fixou os olhos azuis nos de Fábio por longos segundos, absorvendo a promessa e a segurança que emanavam daquele homem de olhar verde. O monitor cardíaco estabilizou em um ritmo calmo e musical, abandonando o sobressalto de antes. Com um suspiro de puro alívio, o jovem loiro relaxou os ombros contra o travesseiro, sem soltar a mão de Fábio.

— Obrigado... — Luciano sussurrou, os olhos começando a pesar novamente pelo efeito dos sedativos e do cansaço biológico, mas mantendo o sorriso brando. — Não vai embora enquanto eu estiver dormindo.

— Nunca — garantiu Fábio, sentando-se na beirada do leito e segurando aquela mão morna como se segurasse o seu próprio futuro. — Eu vou estar bem aqui quando tu acordar de novo.

Luciano fechou os olhos, entregando-se a um sono agora leve e reparador. Fábio permaneceu imóvel na penumbra acolhedora do quarto, o peito inundado por uma certeza inabalável: o mistério de Luciano Laud estava apenas começando a se revelar, e ele estava inteiramente pronto para viver cada linha daquela nova história.



 
 
 

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