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Você Merece Ser Bem Cuidado

Antônio e Maurício (Imagem criada por intelligência artificial)

A manhã de sábado infiltrou-se pela suíte com uma delicadeza que contrastava com a fúria da noite anterior. Um feixe de luz pálida atravessou a fresta da cortina de seda, desenhando uma linha dourada que percorria o emaranhado de lençóis de linho, agora rendidos ao caos do prazer.

Maurício despertou primeiro. Sentia o corpo pesado, uma letargia deliciosa que parecia ter apagado anos de rigidez e luto. O braço de Antônio ainda rodeava sua cintura com uma possessividade instintiva, o calor da pele morena do rapaz agindo como uma âncora que o impedia de flutuar para longe daquela realidade. Ele permaneceu imóvel por longos minutos, apenas ouvindo a respiração rítmica de Antônio contra sua nuca, deliciando-se com a sensação de não estar sozinho.

A quietude matinal era um luxo que Maurício não se permitia saborear há muito tempo. O relógio de pulso, esquecido sobre a mesa de cabeceira ao lado de um copo de água intocado, marcava o início de um dia que ele não queria que avançasse. Ali, protegido pelas paredes de isolamento acústico e pelo calor humano que emanava de Antônio, o mundo lá fora — com seus julgamentos, suas pressões e a sombra de Fernando — parecia uma ficção distante.

Ele sentiu um leve movimento nas costas. Antônio, ainda mergulhado nas camadas profundas do sono, apertou o abraço de forma inconsciente, enterrando o rosto entre as escápulas de Maurício. O hálito quente do rapaz, rítmico e reconfortante, era a prova física de que a noite não fora um delírio febril.

Maurício fechou os olhos novamente, permitindo-se mapear, pelo tato, a presença do jovem. Sentia a textura dos pelos finos no braço de Antônio contra seu abdômen e o peso da perna do rapaz jogada sobre as suas. Era uma intimidade crua, desprovida das máscaras sociais que ele costumava usar. Por um instante, o publicitário bem-sucedido deu lugar ao homem vulnerável, aquele que finalmente ousara abrir as janelas de uma alma que estava trancada em um luto estéril.

Movido por uma delicadeza quase coreografada, Maurício começou a desprender-se dos braços de Antônio. Cada centímetro de pele que se afastava era uma pequena perda térmica, mas ele precisava daquele momento de observação. Saiu vagarosamente da cama, os pés descalços afundando no tapete felpudo, e permaneceu em pé, uma sentinela silenciosa diante do leito.

Antônio dormia pesadamente, de bruços, o rosto parcialmente enterrado no travesseiro de plumas. Era, possivelmente, o primeiro sono profundo e sem sobressaltos que o rapaz experimentava em semanas, longe da rigidez hostil dos bancos de praça e da vigília constante das ruas. Maurício deixou que seus olhos percorressem cada detalhe daquela anatomia: a curva dos ombros largos, a linha definida da coluna que mergulhava em direção às nádegas firmes e o relevo muscular das coxas. A perfeição daquela nudez, exposta sem artifícios, exercia sobre o publicitário uma atração que transcendia o físico; era um magnetismo estético e vital que o deixava em transe.

Decidido a transformar aquele desejo em cuidado, Maurício quebrou o feitiço visual e saiu do quarto. Caminhou pela casa com uma naturalidade nova, desfilando sua própria nudez pelos corredores arejados, sentindo o ar fresco da manhã na pele alva. Na lavanderia, o som rítmico dos grãos de ração caindo na tigela de Pepeu anunciou o início do dia para o beagle, que agradeceu com um abanar de cauda discreto.

Na cozinha, o ritual do café foi executado com precisão sensorial. O aroma do grão moído na hora começou a expulsar os últimos vestígios do perfume de sândalo e da eletricidade da noite anterior. Maurício montou uma bandeja generosa: frutas frescas, pães artesanais e o café fumegante. Com o equilíbrio de quem carrega um tesouro, ele retornou ao quarto.

Depositou a bandeja sobre uma parte estável da cama e sentou-se ao lado de Antônio. Inclinou-se, permitindo que seus lábios encontrassem a pele quente do rapaz em um beijo que carregava mais promessas do que saudações.

— Bom dia... — sussurrou Antônio, a voz tão grave e rouca pelo despertar que pareceu vibrar dentro do próprio peito de Maurício.

Maurício sorriu, sentindo um arrepio percorrer sua espinha que nada tinha a ver com o frio do ar-condicionado.

— Bom dia — respondeu ele, virando-se vagarosamente dentro do abraço para encontrar os olhos castanhos e ainda nublados de Antônio. — Dormiu bem?

O rapaz de Almas não respondeu de imediato. Apenas fixou o olhar no de Maurício, com uma clareza que desarmava qualquer tentativa de polidez. Ele levou a mão ao rosto do anfitrião, o polegar calejado acariciando a maçã do rosto de pele alva com uma ternura inesperada, um contraste bruto e doce ao mesmo tempo.

— Dormi como se estivesse em casa — confessou Antônio.

Aquelas palavras atingiram Maurício com a força de uma revelação. Não era apenas sobre o conforto do colchão ou o luxo do vigésimo andar; era sobre a sensação de pertencimento que ambos, por caminhos tão distintos, haviam perdido. Eles permaneceram ali, suspensos naquele hiato de tempo, enquanto o sol subia mais um pouco no céu de Florianópolis.

Maurício ajeitou a bandeja de prata sobre o edredom de linho, posicionando-a com cuidado entre as pernas de Antônio. O aroma do café recém-passado e das torradas amanteigadas preencheu o espaço entre os dois, mas os olhos de Antônio não estavam na comida. Ele fitava as frutas cortadas com precisão, o suco de laranja fresco e o pequeno ramo de alecrim que Maurício colhera do vaso na varanda apenas para decorar o conjunto.

Antônio sentiu um nó subir pela garganta. O contraste entre aquele cuidado meticuloso e a aspereza do banco de madeira onde dormira na noite anterior era quase insuportável de tão doce.

— Ninguém nunca... — Antônio começou, a voz falhando, os olhos subitamente brilhantes sob a luz da manhã. — Ninguém nunca preparou algo assim para mim, Maurício. Nem em Almas, nem em lugar nenhum.

Maurício sentou-se na beirada da cama, a nudez de ambos sob o lençol criando um calor compartilhado. Ele estendeu a mão e acariciou o rosto de Antônio, limpando uma lágrima solitária que ameaçava cair.

— Então já passou da hora de você descobrir que merece ser cuidado, Antônio. — Maurício sorriu, um sorriso que carregava uma paz que ele não sentia há anos. — Prove o café. Está do jeito que eu gosto, forte e sem pressa.

Antônio levou a xícara de porcelana aos lábios, bebendo um gole longo. O calor do líquido pareceu espalhar-se por seu peito, desfazendo as últimas defesas de sua alma calejada.

— É estranho — disse o rapaz, deixando a xícara de volta na bandeja. — Ontem eu era apenas um corpo ocupando espaço na beira da Lagoa. Hoje, sinto que sou alguém de verdade. Você me olha como se eu não fosse um problema a ser resolvido, mas uma pessoa a ser descoberta.

— Porque você é, Tom. — Maurício pegou um pedaço de mamão e ofereceu na boca do jovem, que aceitou com uma submissão carinhosa. — Desde o momento em que você se ofereceu para carregar aquelas sacolas, eu vi uma dignidade em você que o mundo tentou apagar, mas não conseguiu. Você me devolveu algo que eu achei que tinha morrido com o Fernando: a vontade de olhar para o amanhã sem medo.

Antônio segurou a mão de Maurício, entrelaçando seus dedos rústicos nos dedos finos do publicitário.

— Eu tive tanto medo de você ser apenas mais um daqueles homens que buscam o que eu tenho para oferecer e depois me jogam de volta na calçada. Mas o jeito que você me tocou... não foi só desejo. Foi como se você estivesse me pedindo licença para entrar na minha vida.

— E eu estou — confessou Maurício, aproximando o rosto do dele. — Eu não quero que este café seja apenas uma despedida educada. Quero que você entenda que esta casa, a partir de hoje, não precisa mais ser um mausoléu. Ela pode ser um começo. Para nós dois.

Antônio sorriu, um sorriso largo que iluminou seu rosto moreno.

— Eu não tenho nada para te oferecer, Maurício. Além do meu braço, da minha força e desse sentimento que está crescendo aqui dentro e me assusta de tão rápido.

— Você me oferece a vida, Tom. E isso vale mais do que qualquer conta bancária ou prêmio de publicidade. — Maurício selou a promessa com um beijo lento, com gosto de café e mel, enquanto Pepeu, aos pés da cama, soltava um suspiro satisfeito, como se celebrasse a nova harmonia daquele lar.



 
 
 

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