Theo:O Sacrifício Silencioso

Theo (Imagem criada por inteligência artificial)
O ar no minúsculo quitinete do bairro São Vicente, em Itajaí, tinha a densidade da umidade costeira e o cheiro metálico de uma tempestade iminente. As paredes descascadas pareciam encolher, sufocando o ambiente enquanto o choro de Bento — um lamento agudo e persistente de seus seis meses de vida — reboava pelo teto rebaixado.
Teodoro passava as mãos trêmulas pelos cabelos, os olhos fundos de quem ignorava o sono havia dias. Para ele, o choro do menino não era apenas som; era um ponteiro implacável marcando a contagem regressiva de sua própria impotência.
— Essa criança não para de chorar... — murmurou, a voz falhando, direcionada mais às manchas da parede do que à esposa.
Sentada na beira da cama desfeita, Débora embalava o bebê num movimento mecânico, desprovido de qualquer aconchego. Seus olhos, que antes guardavam o brilho solar do lavrado roraimense, agora queimavam em brasas de ressentimento.
— E o que você esperava? — rebateu, com a voz cortante como uma lâmina. — O pobrezinho está com fome, Teodoro. E você aí, plantado, assistindo nosso filho definhar sem mover uma palha por uma caixa de leite.
Teodoro virou-se de supetão, a indignação travando uma guerra interna contra a vergonha.
— Quer que eu faça o quê? Que saia por aí roubando? É essa a imagem que você tem de mim?
— Dê o seu jeito! — Débora ergueu-se de um salto, o sobressalto fazendo Bento gritar com ainda mais força. — Peça a um vizinho, implore, ofereça-se para limpar um quintal! A genial ideia de vir buscar a vida em Santa Catarina foi sua. Se estivéssemos em Uiramutã, teríamos a rede da nossa gente, um prato quente na mesa e braços amigos para aliviar o peso enquanto eu tentava respirar. [...]
— Jogar o peso inteiro nas minhas costas agora é cômodo — disse ele, num tom baixo, carregado de uma melancolia que feria mais que qualquer grito. — Decidimos isso juntos, Débora. Você também sonhava com esse futuro. Eu só... eu só não contava que o mundo fosse nos fechar as portas com tanta pressa.
Débora encarou o rosto pálido do filho e, em seguida, fitou a feição derrotada do homem que escolheu amar. A ira, aos poucos, esvaiu-se em um esgotamento avassalador. O orgulho roraimense, forjado sob o sol inclemente do norte, agora tiritava de frio na umidade do São Vicente.
— O pacto era para vencermos, Teodoro — ela murmurou, deixando que as lágrimas enfim transbordassem. — Não para assistir o Bento definhar de fome.
Sem dizer mais nada, Teodoro puxou o moletom gasto pendurado no encosto da cadeira de plástico. Não havia notas em seus bolsos, tampouco qualquer plano desenhado na mente, mas o choro do filho impunha uma ordem incontornável.
— Eu vou sair — anunciou, pousando a mão firme na maçaneta da porta rangente. — Não sei de que forma, mas eu juro que só volto com esse leite.
Ao girar o trinco, uma rajada de vento fresco invadiu o corredor, dissipando o ar estagnado do cômodo. Lá dentro, Débora recomeçou o balanço monótono, embalando a criança e rezando para que a sorte — que os arrastara por milhares de quilômetros — lembrasse, enfim, do endereço deles. [...]
Ele caminhou até cruzar o limite invisível que separa o São Vicente do bairro São João. Ali, onde o movimento era ainda mais escasso, ele parou sob o cone de luz amarelada de um poste solitário. O silêncio da rua era apenas interrompido pelo som de um carro distante e pelo bater de suas próprias pálpebras, pesadas de cansaço.
Teodoro encostou as costas no concreto frio do poste e deslizou até ficar de cócoras, escondendo o rosto entre as mãos grandes.
— Pensa, Teodoro... pensa — sussurrou para si mesmo, enquanto a imagem de Bento, com o rosto vermelho de tanto chorar, queimava em sua mente.
Cada batida de seu coração parecia martelar duas palavras: leite e fraldas. O instinto de provedor rugia dentro dele, mas a realidade das mãos vazias era um abismo. Ele olhou para as próprias palmas, calejadas e prontas para qualquer labuta, mas inúteis naquele momento de desespero absoluto. [...]
Um carro de luxo freou diante dele, rasgando a monotonia do asfalto castigado do São João. Assim que o vidro deslizou, o choque térmico do ar-condicionado e o rastro de um perfume estrangeiro invadiram os sentidos de Teodoro. No interior, um homem de fios grisalhos perfeitamente alinhados o encarava, ostentando um sorriso onde a ambição e o poder se confundiam.
— Quanto é o programa? — A pergunta veio direta, sem o verniz da cortesia, atingindo Teodoro como um soco no estômago.
O rapaz sentiu o sangue subir-lhe às faces, a pele morena esquentando sob a luz do poste.
— Desculpe, o senhor deve estar me confundindo — retrucou, a voz ríspida, os punhos cerrando-se ao lado do corpo. A irritação vibrava em sua mandíbula travada.
O homem, porém, não pareceu intimidado pela estatura ou pela fúria silenciosa do jovem à sua frente. Pelo contrário, soltou uma risada baixa, os olhos percorrendo cada detalhe do físico de Teodoro com uma fome indisfarçável.
— Saquei... está querendo valorizar o passe, não é? Diga quanto você está valendo que eu pago. Pago qualquer valor para sentir esse corpo todinho me possuindo com vontade.
A náusea subiu pela garganta de Teodoro. A proposta era um insulto a tudo o que ele acreditava ser, à sua honra de homem criado na lida bruta e honesta. Ele abriu a boca para proferir um xingamento, para mandar o estranho seguir seu caminho, mas o movimento das mãos do homem dentro do carro o fez estacar.
O estranho puxou três notas de cem reais, exibindo-as entre os dedos como se fossem apenas papéis sem importância. Para Teodoro, aquelas notas brilhavam mais que a própria lua acima deles. Naquele papel colorido, ele não via luxo; ele via latas de leite em pó, pacotes de fraldas, o aluguel atrasado e, acima de tudo, o fim do choro desesperado de Bento.
Era o valor que ele demoraria quase uma semana de suor e cansaço para conseguir no trabalho informal — se tivesse um.
— E então? Estamos de acordo? — insistiu o homem, a voz agora mais mansa, percebendo que a resistência de Teodoro começava a ruir diante da necessidade.
Teodoro olhou para as notas e depois para o asfalto. O mundo parecia ter ficado em silêncio, restando apenas o som de sua própria respiração pesada. Em sua mente, a imagem de Débora chorando no quitinete e o rosto faminto do filho travavam uma batalha contra seu orgulho. A moral era um luxo que ele já não tinha certeza se podia pagar.
Lentamente, ele descruzou os braços, os olhos castanhos fixos no dinheiro, sentindo o peso da decisão que mudaria não só a sua noite, mas a imagem que tinha de si mesmo no espelho.
Teodoro sentiu um gosto amargo de bile na garganta enquanto as palavras saíam, quase contra sua vontade.
— Eu não sou garoto de programa — afirmou, a voz soando mais como uma tentativa desesperada de salvar o que restava de sua dignidade do que um aviso. — Mas eu estou precisando muito do dinheiro. Se você garantir o dobro do valor, estamos fechados.
O homem no banco de couro soltou um suspiro de satisfação, os olhos brilhando com a vitória de quem sabe que tudo tem um preço.
— Por mim, está ótimo — respondeu ele, a voz aveludada pela antecipação. — Faça a volta, entre no carro. Tenho um local aqui perto onde podemos ir.
Cada passo que Teodoro dava ao contornar a frente do veículo luxuoso parecia carregar o peso de correntes invisíveis. Ele sentou-se no banco do carona, sentindo a maciez do estofado e o frescor do ar-condicionado que, em vez de relaxá-lo, o fez estremecer. O homem não perdeu tempo e estendeu as notas.
— Fique com esse dinheiro como adiantamento. Depois do trabalho pago a diferença — disse ele, observando com atenção os dedos fortes e calejados de Teodoro pegarem o maço. — A propósito, meu nome é Marcos. Qual é o seu?
— Te... — O rapaz estancou. O nome que sua mãe lhe dera, o nome do pai de Bento, parecia sagrado demais para ser entregue ali, naquele habitáculo perfumado e pecaminoso. — Theo — concluiu ele, enterrando a própria identidade sob um apelido curto e impessoal.
— Prazer, Theo. Então, vamos em frente que eu estou ansioso por ver esse corpo sem essa barreira das roupas.
Marcos engatou a marcha e o motor silencioso rugiu discretamente. No instante em que o carro arrancou, deixando para trás a luz solitária do poste no bairro São João, o coração de Theo apertou de uma forma que ele nunca sentira antes. Era uma pressão física, um sufocamento.
Ele olhou para as notas em sua mão — o papel frio que representava a sobrevivência de sua família — e sentiu um abismo se abrir sob seus pés. Enquanto o cenário de Itajaí passava rápido pela janela, ele percebeu, com um pavor mudo, que o Teodoro que saíra de casa para buscar leite já não existia mais. Agora, restava apenas Theo, um estranho em um carro de luxo, avançando em direção a uma noite que não teria volta.
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